10.1.19

Crítica: A Esposa

A Esposa
Imagem: Pandora Filmes / DIVULGAÇÃO

Boquetitos, personagem do “O Último Programa do Mundo”, disse uma frase em um dos episódios que serve de resumo para “A Esposa”, filme dirigido por Bjorn Runge e estrelado por Glenn Close e Jonathan Pryce, “Sempre que aquela vozinha disser ‘desista’... desista. É bom demais”.

Até porque, acompanhamos a história de uma mulher que desistiu de sua carreira de escritora, por saber como o mercado editorial funcionava e que talvez ela nunca fosse publicada e se eventualmente fosse, não seria lida. Assim, desistir trouxe para ela uma sensação de alivio, de tirar um peso das costas e ela seguiu em frente.

Essa é a história que “A Esposa” conta, Glenn Close interpreta Joan, a mulher do parágrafo acima, Jonathan Pryce interpreta seu marido Joseph, um escritor que acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. O casal, acompanhado de seu filho David, vão até Estocolmo para a cerimônia de entrega dos prêmios e assim, a carreira de escritora de Joan vêm à tona, assim como a relação amorosa entre o casal.

O último ponto é o que enriquece o filme, já que a complexidade do amor é o assunto que domina as carreiras dos dois, já que ambas estão, no caso aqui retratado, inerentemente ligadas como Runge faz questão de mostrar, usando os enquadramentos, fotografia levemente escura e até leves quebras de quarta parede.

Em relação aos enquadramentos, a câmera está sempre buscando Joan no quadro, deixando claro para o público que ela é a personagem principal do filme e que sua carreira frustrada de escritora não acabou, já que o casamento dela com Joseph não foi apenas por amor, mas também por ela ter visto uma oportunidade de ela ter sucesso usando o marido, por isso ela quis ser a editora dele, “consertando” seus textos.

Logo, ela querer isso faz as breves quebras de quarta parede serem inteligentes, já que o olhar de Glenn Close para a câmera indica uma coisa, que poderia ser ela recebendo o Nobel de Literatura ao invés do marido, que ela tem tanto talento quanto ele ou até mais e que, de maneira direta ou indireta a desistência dela foi por causa de Joseph.

Mas, como eu disse, o amor é complexo, mesmo com os diversos erros cometidos pelos dois, o mantenimento da relação e as concessões que ambos fizeram para isso são belas ao mesmo tempo que difíceis. Ele já cometeu adultério, porém era um pai atencioso com os filhos, já que ela focava nos “consertos” dos livros dele e assim se afastou das crianças. Se ele está feliz com o Nobel, ela sente uma pontada de inveja – sentimento também demonstrado no olhar de Glenn Close – e, por isso, ela decide ir ao bar com Nathaniel, o escritor que tenta ser o biografo de Joseph.

Por falar em Nathaniel, o personagem é uma figura vilanesca necessária para a obra e Christian Slater assume esse papel muito bem, transformando o escritor em um profissional implacável que faz de tudo para expor os mais variados detalhes da vida de Joseph e como esses detalhes afetam a família Castleman.

Mas, é claro que as performances que mais merecem destaque são de Glenn Close e Jonathan Pryce. É notável como Pryce e Close se completam nos seus papeis e se elevam em suas performances, um não funciona sem o outro, já que é como se fossem metades de uma mesma pessoa e se Joan faz o que faz porque quer, Joseph faz o que faz por causa dela, logo, se eles não se elevarem, fica impossível realizar o trabalho.

Essa elevação mutua é o que domina o filme e o que constrói a metalinguagem da obra, já que, apesar de o roteiro de Jane Anderson ser bem amarrado e fechar todas as pontas de forma inteligente, ele é repleto de clichês, que vão sendo destruídos de forma gradual durante as 1h40 de projeção. Clichês que são condenados pelo casal principal e por isso essa destruição funciona tão efetivamente, devido as performances de Close e Pryce que trabalham com o inesperado em relação ao amor a todo momento.

Pois, se depois de uma discussão, logo em seguida algo acontece e os dois se abraçam, sabendo de tudo o que passaram, sabendo que irão passar por mais coisas do tipo e possivelmente até piores e ainda assim eles fazem concessões um ao outro para manterem o relacionamento vivo, é porque eles se amam, mesmo com os inúmeros defeitos de cada um.

Talvez essa seja a mensagem que “A Esposa” queira passar, de cumplicidade nos momentos difíceis e fáceis, por mais que esses últimos sejam comemorados de forma incrivelmente boba, como pular na cama de comemoração porque ganhou o Nobel.

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