1.8.19

Crítica: No coração do mundo

No coração do mundo
Imagem: Embaúba Filmes / DIVULGAÇÃO
Arte sendo arte é algo que usa um grande cenário, o reduz e cria uma história em cima disso que reproduz coisas com as quais o público está acostumado. No caso de “No Coração do Mundo”, Gabriel Martins e Maurílio Martins fazem isso com o Brasil e com as pessoas que tem sonhos.

E, se tem algo existente em uma periferia, são sonhos. O filme se passa em Contagem, cidade de Minas Gerais, porém poderia ser em qualquer lugar e conta a história de moradores de um mesmo bairro periférico, que estão ligados por se conhecerem e serem vizinhos.

Marcos (Leo Pyrata) é um desempregado que se vira como pode ajudando Selma (Grace Passô) com seu projeto fotográfico. Apesar disso sua principal fonte de renda são pequenos crimes e bicos. Namorado de Ana (Kelly Crifer), uma cobradora de ônibus, que é amiga de Rose (Barbara Colen), dona de um salão de beleza e namorada de Miro (Robert Frank), um homem que enfrenta diversos problemas familiares devido a irresponsabilidade criminosa de seu irmão, Beto (Renato Novaes) que matou uma pessoa com a arma de Marcos.

Após ser informada de uma casa em um bairro rico que está vazia, Selma chama Marcos para roubá-la e o filme se desenvolve na preparação deste roubo, em Marcos convencendo a namorada a participar dele, ao mesmo tempo em que mostra a rotina dos outros personagens, citados acima, cada um com suas próprias vidas.

Devido a essa decisão de ter várias histórias se desenrolando no mesmo espaço de tempo, o filme não tem um personagem principal, por mais que tenha um arco principal (o do roubo). Isso se revela uma decisão acertada dos diretores, pois mostra a pluralidade com a qual uma sociedade, principalmente a brasileira, é formada, com várias pessoas, várias etnias, ideologias, religiões e profissões.

Todos têm um tempo igual de tela, então é possível, através de cortes bem encaixados que ligam um arco a outro (o que gera ritmo), conhecer os personagens, suas intimidades e saber que eles têm algo em comum, que são os sonhos. Rose sonha em crescer financeiramente aos poucos e através do trabalho, Miro apenas quer ficar longe de qualquer coisa ilegal, Selma quer voltar para a filha e Marcos está sem perspectiva, estagnado. 

No coração do mundo
Imagem: Embaúba Filmes / DIVULGAÇÃO
Esse ritmo também é mantido por movimentos de câmera fluidos, consistentes e que acontecem de acordo com a necessidade da cena, sempre buscando centralizar os personagens no quadro, para que possamos ver suas expressões e suas diferenças, é aí que vemos como eles são diferentes e como o Brasil é um país construído em cima dessas diferenças, misturas e relações entre matrizes populacionais e originarias distintas.

Por isso que o coração do mundo pode ser “um lugar, onde o nosso desejo tá, onde a gente quer pisar”, como diz Selma, pois este coração é aonde nossos sonhos nos levam, o que pode ser em qualquer lugar, como fica exposto pelos movimentos de câmera já citados, que são travellings para o lado, para cima e para trás, assim como os movimentos que os personagens fazem ao andar pelo bairro e fazerem suas coisas.

Sem dúvida, esses movimentos e essas centralizações ajudam o elenco em seu desempenho e não há ninguém ali que não seja competente, mas Grace Passô se destaca, com seu tom de voz firme ao mesmo tempo em que tem esperança de algo melhor no seu olhar, mesmo que para isso, precise fazer coisas ruins, como o roubo.

E a cena do roubo é a maior prova de fluidez dos movimentos, já que é toda em plano sequência, expondo como o coração do mundo, quando se trata de sonhos, não pode ter cortes e paradas de nenhum tipo, assim como a rotina de todos os personagens não tem o privilegio de fazer uma pausa e esse ponto se relaciona diretamente com o cenário que os diretores quiseram reconstruir no seu roteiro.

Ao unir matrizes populacionais diversas, histórias diversas, personagens diversos, “No Coração do Mundo” é um filme tão plural quanto o seu país de origem e fica a sensação de certeza de que temos muito mais para mostrar, mesmo que nós sejamos engolidos pela vida justamente como os personagens são.

Veja o trailer, filme distribuído pela Embaúba Filmes:

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