5.3.20

Crítica: Fim de festa

Fim de festa
Imagem: Carnaval Filmes / Victor Jucá / DIVULGAÇÃO
“Fim de Festa” é um fim de festa, seja no sentido metafórico da coisa ou no sentido literal. O filme representa durante as suas 1h34, o fim de algo que descobriremos o que foi no decorrer desse tempo citado e descobrir o que foi algo sabendo que ele acabou, é uma experiencia inegavelmente triste.

Assim como Breno (Irandhir Santos), protagonista do novo filme do diretor Hilton Lacerda. Escrito pelo próprio, acompanhamos a história desse policial que tem suas férias acabadas devido a um assassinato de uma turista francesa durante o carnaval em Recife. Ao chegar em casa ele vê que seu filho, Breninho (Gustavo Patriota) está recebendo amigos e não esperava o retorno do pai.

O sentimento de tristeza citado é carregado pelo clima pesado de um fim de festa. Sabe aquela sensação de tensão, que é em uma festa é representada por uma música desanimada que expulsa os "sobreviventes" daquele local? É justamente isso que a fotografia, predominantemente cinza, mesmo no calor do nordeste, expõe, o que contribui para a montagem.

Essa divide o filme em dias, cinco dias para ser mais exato, cada um deles com um título: cinzas, ele não sabe viver sem ela, atropelos do acaso, a bout de souffle (sem folego em português) e pós civilização. Os dias são divididos entre a rotina do filho de Breno e da investigação dele perante o caso.

No meio da solidão e tristeza de Breno (que serão tratadas mais abaixo) e a rotina do filho dele, o filme aborda temas variados, como nudez pública feminina (cena das amigas de Breno fazendo topless na praia) e principalmente, a obra trabalha uma elite brasileira que tem um pouco mais de dinheiro do que a maioria da população e se acham milionárias. Nesse ponto, o fim de festa do título é como se fosse o fim de um começo de um país melhor, que é representado por essas pessoas.

Lacerda é inteligente em trabalhar esses temas usando as duas tramas que cria, através de um conflito geracional que fala dos jovens felizes e otimistas, como num começo de festa e dos mais velhos, já tristes e solitários, vivendo um fim de festa sempre dinâmico dentro de sua própria tristeza.

Não que Breno seja velho, não é, mas é como se ele sentisse que já viveu tudo aquilo que tinha para viver e assim, ele se isola naturalmente dentro de si próprio. O que é normal para todos, mas que não significa ser uma sensação eterna. A felicidade para esse tipo de pessoa é estática e em compensação, a tristeza sempre é dinâmica. Então, Breno usa esse dinamismo para conseguir viver um dia após o outro e todos esses sentimentos citados e as interpretações que podem surgir no público a partir deles, são muito bem expostos por Irandhir Santos, um ator sempre capaz de surpreender em papeis variados.

Essa solidão e o dinamismo parcial que ela traz é sem dúvida gerado pela falta que as pessoas sentem de algo e assim é bonito ver que um dos últimos diálogos do filme é justamente sobre isso. “Que que tu sente por ela?”, pergunta um personagem para Breno, falando de uma certa pessoa, no que ele diz “Falta”.

Ele não sente essa falta sem saber que foi ele que a gerou e é isso que faz “Fim de festa” tão pesado e inteligente no que propõe. Ao tratar de assuntos atuais e ao mesmo tempo falar de solidão e falta, construindo um personagem que sabe de sua parcela de culpa na solidão que lhe foi imposta é algo ousado para um filme policial.

Tomara que a “festa” cinematográfica de Hilton Lacerda não chegue ao fim.

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