31.10.20

Critica: Dias

Dias
Imagem: DIVULGAÇÃO 

"Esse filme é intencionalmente sem legendas". É com esse aviso que "Dias" dirigido e escrito por Tsai Ming-Liang começa e só por esse alerta curto, o público pode ter uma ideia do que vem pela frente. Pois, para quem é sozinho ou já foi sozinho (e portanto, conhece a solidão a fundo), a vida é algo monótono, sem graça, sem cor, silencioso, sem legendas. Para tentar escapar disso, uma pessoa solitária se apega a rotina, onde se prende no aqui e agora, tentando não pensar no que vem depois. 

Acompanhamos Kang, um morador de Bangkok, homem, sozinho, vemos como ele vive dentro de uma rotina regrada, olhando as arvores da cidade onde vive e principalmente as pessoas, refletindo sobre seria ter alguém com quem contar e principalmente, em quem confiar.

De certa forma, o que foi dito nos dois parágrafos acima justifica os longos planos concebidos por Ming-Liang, primeiro por mostrar a rotina do protagonista, segundo por fazer o público perceber como a vida deles é tediosa. O tédio é usado como uma ferramenta, se o espectador o sentiu é porque ele, mesmo inconscientemente, entendeu a proposta do realizador. Os ângulos abertos também tem esse objetivo, pois através deles vemos mais do espaço onde o personagem principal se encontra e, portanto, entendemos que sua solidão não é apenas mental, mas também física. 

Fisicalidade presente em diversas cenas, todas elas com o objetivo já dito de aliviar a solidão do protagonista de forma que ele fique no aqui e agora, como, por exemplo, na cena da acupuntura, mas principalmente na cena do hotel, cujo momento o público imediatamente identificará. Nessa cena vemos o auge do filme, porque é, ao mesmo tempo, a cura da solidão física e mental, além da certeza da efemeridade desse momento no qual Kang não está e nem se sente sozinho.

Sim, há uma diferença entre se sentir sozinho e estar de fato sozinho, você pode se sentir sozinho mesmo estando no meio de várias pessoas que você conhece e que gostam de você, da mesma forma que pode fisicamente, estar sozinho quando de fato se está sozinho.

A busca por afeto, por uma ligação, por algo que te faça se sentir vivo e ter vontade de viver passa pelo fato de não estar sozinho e nem se sentir assim, de ter alguém com quem contar, com quem compartilhar as coisas, com quem buscar ser feliz. Da mesma maneira que temos a certeza que esse tipo de coisa descrita acima é efêmera e que, no fim das contas, estamos em um ciclo e voltamos a estaca zero. A solidão sempre dá um jeito de voltar, ou melhor dizendo, ela nunca foi embora, sempre esteve ali.

Então, "Dias" se torna um retrato da solidão, da busca por felicidade e alegria conjuntas, mas, principalmente, da efemeridade de tudo, o que nos leva a uma rotina solitária da qual nunca iremos nos livrar, a uma busca por esquecimento de nós mesmos que é impossível de se completar e de uma busca por afeto que vem, mas que vai muito mais rápido do que chegou, do qual nunca iremos nos esquecer e que não, não precisa de legendas para passar essas sensações. É só prestar um pouquinho de atenção que tudo está ali, em nós.

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