23.11.20

Crítica: Babenco - Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou

Babenco - Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou
Imagem: Imovision / DIVULGAÇÃO 

É simbólico pensar que devido a arte, o autor dessa nunca morrerá, mesmo depois que ele morre. Graças ao trabalho que fica, o autor ou autora sempre estará presente no imaginário das pessoas, principalmente das pessoas que conheceram o autor ou autora, ou melhor, que conviveram com ele.

“Eu imagino um jantar, onde eu não estou lá, mas as pessoas não sabem que estou vivo, em Hong Kong, em um belo apartamento”. Imaginar isso é ter, de certa forma, fé, crença de viver um pouquinho mais, mesmo quando tudo indica que isso não vai acontecer. Se imaginar vivo, um jantar do seu próprio velório, talvez seja a maior prova da vontade de viver de Hector Babenco.

Vontade de viver que é desconexa, abstrata, assim como o documentário que Barbara Paz dirigiu, “Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou” cria várias narrativas com base na morte inevitável de seu protagonista e na fé inabalável que ele tinha de viver um pouco mais, de ter mais uma refeição, de fazer mais um filme.

Essa desconexão é proposital, uma ferramenta usada por Paz para que o espectador entenda a beleza de sua homenagem ao marido. Se estamos vendo algo que parece um pesadelo, é porque Babenco passou por uma série de pesadelos devido ao câncer, ao mesmo tempo em que, se estamos ouvindo ele falar que precisava fazer mais um filme, é porque ele acreditava que viveria mais um pouco.

Acreditar é essencial e é bonito ver como Paz retrata Babenco acreditando que seu ciclo ainda não tinha acabado, da mesma forma que voltamos sempre a simbolismos de que a morte não é o fim e nunca será. Pois se manter ativo como Babenco fez, indica que ele continuaria respirando até quando aguentasse.

Não a toa, a música que começa o filme é “Exit Music (for a film)” da banda Radiohead, onde em certos momentos, Thom Yorke canta “Breathe, keep breathing” (Respire, continue respirando) e no refrão, o mesmo Yorke fala “Now, we are one, in a everlasting peace” (agora somos um, numa paz eterna).

Babenco continuou respirando, até que ele e a morte virassem um e ele finalmente chegasse a paz eterna, porém, o que fica, são seus filmes, que sempre continuarão respirando e talvez, levando o público a um tipo de paz que apenas o cinema pode trazer.

Porque, na verdade, a morte do Babenco é apenas para gente, que fica e observa, mas sabemos que, não só ele continuou respirando, mas que nós estamos em um jantar, sem saber que ele está vivo, enquanto ele está em Hong Kong, morando em um belo apartamento e provavelmente ensinando alguém a abrir e fechar a câmera pelas ruas da cidade asiática, onde mais uma pessoa se une a desconexão com sentido que só o cinema é capaz de proporcionar. 

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