5.7.21

Cinema de Hong Kong - Um cinema de busca por identidade

Conflito Mortal
Conflito Mortal, dirigido por Wong Kar-Wai

Esse texto faz parte de uma série sobre cinema de Taiwan e cinema de Hong Kong, escrita em conjunto com Paulo Campos. O texto escrito por Paulo Campos, sobre a história de Hong Kong, pode ser lido aqui.

Não é possível falar do cinema de Hong Kong sem falar dos filmes de ação e comédia (muitas vezes juntos). O sucesso desses filmes nas bilheterias foi o que levou o cinema de HK ao sucesso de público, o que gerou, por sua vez, uma certa busca por identidade nos jovens diretores e isso, unido a reunificação de HK a China, que já estava confirmada, é algo importante para a indústria.

Se não fossem nomes como Bruce Lee, Yuen Woo-Ping, John Woo, o estúdio Shaw Brothers, Chow Yun-Fat e Jackie Chan, nomes como Wong Kar-Wai, Stanley Kwan e Ann Hui, nunca haveriam surgido e não teriam tido a importância que tem no cinema como um todo.

Digo isso porque, assim como em qualquer lugar, o cinema precisa de público. No Brasil, tivemos as pornochanchadas, em HK, tivemos os filmes de comédia e ação de Wong Jing, Johnnie To e os nomes citados acima. De maneira que uma coisa liga a outra de forma natural.

Um dos principais filmes dessa época e talvez a obra que tenha gerado uma mudança significativa em como os filmes eram tratados em HK foi Police Story, dirigido e estrelado por Jackie Chan. Nele, vemos um filme de ação que tem como objetivo principal entreter, mas que gera inspirações para avanços na linguagem. Police Story, junto com A Better Tomorrow, dirigido por John Woo, podem ter ajudado, de maneira inconsciente, Wong Kar-Wai a ter feito “Conflito Mortal”, seu primeiro longa, que é um filme de ação.

É mais, digamos, “estilizado” que muitos filmes de ação, mas, é um filme essencialmente de ação e o exemplo perfeito de como dois gêneros considerados diferentes por muitas pessoas tem várias coisas em comum. Drama e ação, assim como comédia e ação, como dito no começo desse texto, eram aliados ao levar o público para o cinema.

O nome de Kar-Wai é recorrente e não é à toa, é com seus dramas que muitos dos cineastas modernos e em atividade conheceram o cinema asiático e de Hong Kong em si. Junto com os filmes de ação, muitos deles viraram refilmagens feitas por diretores estadunidenses, Kar-Wai emplaca sucessos que inspiram diretores como Barry Jenkins em Moonlight.

Center Stage
Center Stage, dirigido por Stanley Kwan - DIVULGAÇÃO

busca por identidade no cinema de Kar-Wai, Hui e Kwan, pode ter sido o fator que proporcionou uma certa popularização recente nos filmes de HK. O mundo vive um momento cuja juventude se encontra confusa e é muito parecido com aquela juventude que viveu a reunificação de HK a China em 97.

Essa juventude, retratada em Comrades – Almost a Love Story é um grupo que luta por sobrevivência diária, mesmo que não saiba exatamente o motivo final pelo qual luta. Em meio ao capitalismo e, principalmente, ao liberalismo presente na sociedade e cada vez mais forte nos governos vigentes, a confusão na própria identidade é algo que caso não acontecesse, seria estranho.

“Center Stage” de Stanley Kwan e “Song of the Exile” de Ann Hui, também tratam essa busca por um desconhecido em meio a uma confusão social. O filme de Kwan, que possivelmente é a maior atuação da carreira de Maggie Cheung (uma das maiores estrelas do cinema de HK) trabalha essa jornada pelo que se é de maneira metalinguística.

Isso porque é um filme que fala sobre cinema e conta a história de uma das primeiras estrelas do cinema asiático, Ruan Lingyu. Em Center Stage, vemos como as carreiras de Cheung e Lingyu são parecidas e como, principalmente, ambas as atrizes e até mesmo o próprio diretor, estavam em busca de uma identidade própria e a procurava dentro dos filmes que faziam.

Nem Cheung, nem Lingyu, conseguiram ter sucesso em sua busca enquanto faziam filmes de ação e comédia, mas ambas conseguiram atingir seus objetivos no drama, ou seja, é possível, mesmo numa época de confusão social e pessoal, encontrar algo no qual se apoiar.

Song of the exile
Song of the exile, dirigido por Ann Hui - DIVULGAÇÃO

Também estrelado por Maggie Cheung, mas um ano depois, “Songof the exile” é a jornada por identidade da própria diretora, Ann Hui, que conta sua própria história no filme que talvez seja o mais rico de uma filmografia extremamente autoral e interessante.

Nele, vemos o crescimento da própria Hui (interpretada por Cheung) e quando esta descobre o motivo de sua mãe levar tão a sério a tradição chinesa – que pode até ser considerada mundial por um tempo – do casamento obrigatório para as filhas. O motivo é que sua mãe uma mulher japonesa, casou-se com seu pai, um homem chinês, durante a guerra Sino – Japonesa e por isso, foi considerada uma traidora da pátria no ambiente social, tendo que abandonar sua vida para construir uma nova ao lado de um amor considerado proibido na época.

A busca no filme de Hui é muito mais pessoal, é como se fosse uma terapia, onde Hui expõe algo que com certeza aconteceu com mais pessoas em HK. Essa pessoalidade e o sucesso encontrado pela diretora em sua jornada, apenas ajuda a expor essa busca de identidade em meio a um momento importante como a reunificação já citada.

Filmes assim são comuns em todo o cinema de HK e eu poderia ficar aqui citando exemplos e mais exemplos de uma filmografia complexa e que deveria ser mais buscada e acessada por cinéfilos em todo o mundo, principalmente em momentos de dúvidas pessoais e dificuldades na vida cotidiana.

O cinema de HK prova que essas dificuldades, por incrível que pareça, passam. Filmes como “Amores Expressos”, de Wong Kar-Wai, mostram como o otimismo, por mais irônico que possa parecer, é possível de se ter, que o amor é algo real mesmo que difícil de ser encontrado e que sua identidade por ser achada mesmo em uma vida atribulada e rápida demais devido a rotina imposta pela cidade grande.

Procurar esse cinema pode ajudar o espectador a entender mais da vida em si devido aos aspectos em comum que temos com os personagens e com os diretores dos filmes citados. Sendo assim, claro que há muito mais filmes do que aqueles citados nesse texto e caso você tenha chegado até aqui, garanto que não se arrependerá em procurar essas obras.

Esse texto faz parte de uma série sobre cinema de Taiwan e cinema de Hong Kong, escrita em conjunto com Paulo Campos. O texto escrito por Paulo Campos, sobre a história de Hong Kong, pode ser lido aqui.

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