21.10.21

Mostra 2021: Deserto Particular

Deserto Particular
Imagem: DIVULGAÇÃO

Confesso que no início de “Deserto Particular”, filme de Aly Muritiba e representante do Brasil no Oscar 2021, eu estava receoso, como o homem negro que sou. A obra, que acompanha o policial Daniel (Antônio Saboia), me deu a impressão que seria mais um filme sobre racismo e tentando, de certa maneira, “limpar” a figura de um policial agressivo.

Felizmente, meu receio acabou quando o personagem faz sua viagem para Sobradinho, em busca de Sara, uma mulher que ele conheceu na internet e após ela passar a ignorar ele depois de um bom tempo conversando (e isso acontece após ele ser pego no flagra de uma agressão em serviço), o faz ir até a cidade dela e procurá-la, largando seu pai doente e sua irmã mais nova.

Esse receio de fato tem final em uma cena específica do começo da trajetória de Daniel. Quando ele está em um bar e uma música começa a tocar, ele sozinho, reage aquela melodia romântica tomando mais um copo de cerveja, triste por não ter conseguido encontrar Sara naquele dia, Daniel pensa sobre o que está fazendo ali e o motivo que o levou por aquela trajetória.

A música, “Total eclipse of the heart”, clássico de Bonnie Tyler e dos românticos, tem um papel similar ao do tango em “Felizes Juntos”, quando Daniel e Sara a dançam em certo momento. Se em “Felizes Juntos”, pensamos em tudo aquilo que passam Tony Leung Chiu-Wai e Leslie Cheung de maneira triste, levando em consideração o relacionamento difícil no qual se encontram, Muritiba constrói Daniel e Sara, ou Daniel e Robson (Nome de batismo e como é chamado as vezes por algumas pessoas), de forma a eles serem um ponto de virada em seus respectivos caminhos.

E para descobrir quem são em meio a tanta confusão. Nem Daniel, nem Sara, sabem quem são e é intrigante ver como essa confusão faz parte do amor dos dois e, claro, da vida dos dois. Da mesma maneira, que o seguir em frente faz parte do relacionamento de Leung e Cheung em “Felizes Juntos”.

Porém, em "Deserto Particular", temos algo que é muito nosso, muito próprio do Brasil, que é a nossa cultura dentro da história. A música que “embala” o casal é “Total eclipse of the heart” pois a canção foi um sucesso estrondoso no nosso país, é um dos vários conteúdos dos EUA que nós, brasileiros, consumimos e gostamos até mesmo mais que os próprios estadunidenses e isso também acontece de estado a estado no Brasil (exemplo: alguém do sul gostar de algo que só tem na região nordeste).

Há vários pontos que podemos ter como exemplo disso, como o futebol, mas, no filme, o ponto mais forte é a internet que liga pessoas de todos os lugares. Se não fosse a internet, Daniel e Sara nunca teriam se conhecido e nunca teriam criado um sentimento tão forte um pelo outro, suas vidas continuariam as mesmas trajetórias confusas, sem terem um ponto em comum.

Claro que no meio do caminho eles tiveram ajuda, provavelmente Sara não teria conseguido viver se não fosse sua vó, o que é outra característica muito comum em nosso país: pessoas criadas pelos avós ou outros parentes porque seus pais (principalmente o pai) desistiram delas. Da mesma maneira que a amizade com sentimento de família (Sara e Fernando), também é algo muito próprio da nossa cultura.

Que é uma cultura de proximidade, de calor humano, algo de que todos nós precisamos. Ambos os personagens principais de “Deserto Particular” se acostumaram a viverem sem isso, em um, como diz o título, deserto particular. Todos nós temos esse deserto e provavelmente nós estamos acostumados a viver assim por falta de opção.

Isso dura até chegar o nosso “Total eclipse of the heart” e se vai rápido assim como acaba a música. Felizmente, sempre é possível apertar o play de novo, mais cedo ou mais tarde, os protagonistas desse belo filme farão isso. 

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