23.10.21

Mostra 2021: A Noite de Fogo

A Noite de Fogo
Imagem: DIVULGAÇÃO

As vezes, a vida é o escapismo para a própria vida e o crescimento é a única solução para que possamos descobrir a realidade. Em certo momento de “Noite de fogo”, dirigido por Tatiana Huezo, vemos Ana, a protagonista, fechando um olho para enxergar apenas com o outro em uma aula de biologia, cujo professor fez esse exercício para sugerir aos alunos olhar as coisas por outro ponto de vista.

Ana faz isso constantemente, por viver em uma vila que serve de mão de obra forçada para tráfico de drogas (a mãe dela e de suas amigas colhem papoula para o cartel fazer heroína), a ferramenta que ela tem para fugir da realidade é justamente a sua rotina, suas amigas, seu crescimento.

Huezo escolhe mostrar esse escapismo ao invés de mostrar como o tráfico de drogas muda a rotina daquelas pessoas. Ao escolher esse ponto de vista, a diretora faz a mesma coisa que sua protagonista faz, usa a vida e algo real, tangível, para esconder algo também real, mas cruel demais para uma fase de crescimento, que deveria ser uma fase bonita e de descobertas.

Como Ana faz, ela cresce a cada dia, a cada cena, a cada momento, de maneira que até esquecemos de toda a crueldade presente naquele mundo e principalmente, naquele local onde Ana ri, brinca e fala com as suas amigas sobre a vida. A diretora constrói esse escapismo através de quadros coloridos e constantes risadas das três adolescentes.

Além de, claro, o local onde elas vivem ter um papel considerável dentro de suas rotinas de crescimento. Assim como em “Tarde para morrer jovem” (dirigido por Dominga Sotomayor), em “Noite de fogo” vemos uma vila que parece ser isolada de todo o resto do país, tanto fisicamente, quanto socialmente.

Isso porque há uma série de coisas básicas que faltam ali e que se não fossem os moradores resolverem essas questões por conta própria, provavelmente eles não teriam acesso ao que é deles por direito e é o mínimo necessário para a sobrevivência. Claro, há um motivo para isso e o fato deles serem ignorados é justamente pelo sistema financeiro vigente, que escolhe esquecer os pobres.

Não a toa, Ana participa, mesmo que de forma indireta, de reuniões com os moradores da vila (junto com sua mãe), como na cena da reunião em relação a escola, definidora do futuro educacional das crianças e adolescentes da vila. O estado ignora aquelas pessoas e deixa o tráfico dominar por um motivo muito claro e definido pelo filme.

Por dedução, o dinheiro ali envolvido não deve ser pouco e mesmo Ana sendo alheia a isso e tudo no filme de Huezo fazer o espectador esquecer o contexto da situação em prol do escapismo, o ponto de vista mais cruel da vida está ali, mas assim como o exercício sugerido pelo professor e já citado no texto, a diretora tampa um de nossos olhos para que vejamos apenas o crescimento de sua protagonista.

Isso faz com que nos lembremos do que a vida é feita e do que fato importa, claro, não podemos ignorar as coisas importantes e a realidade, mas, é importante que a gente saiba que nem tudo é duro e cruel e as coisas podem ser bonitas de vez em quando mesmo em meio ao caos. 

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