30.10.17

Crítica: “The Square” e o desconforto da indiferença

The Square
Imagem: Divulgação

Há alguns anos atrás, não lembro qual a data, eu e meu pai fomos a uma bienal de arte. Foi no Ibirapuera e como sempre gostei muito de arte, me lembro desse passeio até hoje. A recordação mais forte é de uma obra a qual nunca havia imaginado ser possível, dada a sua simplicidade. Era o seguinte: a borda de uma cartolina preta cortada estava colada em uma parede em branco, as “sobras”, os retalhos, estavam logo abaixo, completando o trabalho. Lembro que disse “Como eu não pensei nisso antes? Isso é arte?”

Tempos depois, nos dias mais atuais, percebo que vivo minha juventude em uma época insana. A barbárie está em todos os lados, as pessoas se tratam com indiferença (não me excluo disso), não se importar se tornou automático, rotineiro, somos uma sociedade de robôs, sem nenhuma expressão, e fazemos isso para nos proteger, ao mesmo tempo em que nos afastamos.


Assim, ao ver um filme como “The Square”, foi inevitável não lembrar do primeiro caso, devido a temática da obra, discutindo o que é ou não arte e, em relação ao descrito no segundo parágrafo, o personagem principal luta contra essa indiferença automática em relação aos outros, ele acredita nas pessoas.

Dirigido por Ruben Ostlund, obra vencedora do Festival de Cannes de 2017, a projeção conta a história de Christian (interpretado por Claes Bang). O homem acaba de se tornar curador do Museu de Arte Moderna de Estocolmo. Ele está promovendo, como sua primeira exposição, a mostra The Square, onde a intenção é colocar as pessoas próximas a um quadrado (“Square” é quadrado na língua inglesa) e usando o sentido geométrico (de igualdade entre todos e cuidado com os outros) fazer o público se importar mais com o próximo. Ele acredita nas pessoas mas, quando seu celular é roubado, a dúvida entre manter seus princípios ou ser indiferente, o assola.

O filme pode ser destrinchado a partir de sua primeira cena, onde Christian diz para Anne (personagem de Elisabeth Moss, vencedora do Emmy de Melhor Atriz por "The Handmaid´s Tale), “se eu colocar sua bolsa no chão, dentro do museu, vai ser arte?”. Esse debate, do que é ou não artístico está presente em todas as cenas, devido a disposição da história feita por Ostlund.

Claro, essa distribuição se deve a montagem. As cenas são muito bem encaixadas, sempre levam o público a pensar em como tudo aquilo pode ser incomodo, desconfortante (desconforto é um termo correto, como mostrarei adiante). Assim, ao vermos a dificuldade do protagonista na administração do museu, percebemos como é difícil explicar arte moderna para todos os públicos.

Um exemplo claro disso é a cena onde a exposição “The Square” é anunciada. Primeiramente, quando Christian está discursando, as pessoas estão prestando atenção, por serem considerados um tipo de público “diferenciado”, essa é a atitude esperada pelo curador, que muda sua fala quando percebe que os ouvintes estão ficando cada vez menos atentos. Logo em seguida, quando a palavra é passada para o chef do museu, eles já começam a sair dali e se dirigir a sala de jantar, levando o atual palestrante a se indignar, em uma cena engraçada e empática.

Mas o dominante mesmo no humor de “The Square” é o desconforto, o teor das piadas é um tanto quanto sádico, um humor negro, levando o espectador a sentir vergonha de estar dando risada daquilo. Porém, isso não é um problema, porque esse humor é o facilitador da compreensão da luta de Christian contra a indiferença humana.

Está bem clara a vontade do homem de melhorar, e está bem claro a dificuldade dele em fazer isso. Quando seu celular é roubado, ele fica em um misto de “eu tenho dinheiro, posso comprar outro” e “eu sei onde o meu aparelho está, eu vou lá pegar e fazer justiça com as próprias mãos”. Na cena em que está analisando a propaganda de sua exposição, vemos a sua indiferença em relação a algo que pode gerar inúmeros riscos ao museu e em outros momentos, testemunhamos a luta constante dele para tratar melhor as mulheres de sua vida: as filhas, a jornalista e a assessora do museu.

Indiferença, palavra que nos leva novamente a discussão do que é ou não arte. A melhor cena do filme é aquela onde um homem imita um gorila em uma performance. Nela, vemos como as pessoas podem não se importar com as outras, como a agressividade extrema leva a essas mesmas pessoas a sentirem necessidade de agir. Inclusive, como a cena quase não tem cortes, o peso dramático dela (grande por si só) é potencializado.

Porque nessa cena é onde vemos a que ponto o humano pode chegar em relação a ignorância (no sentido de não ver o outro) e a linha tênue que divide agressividade/humanidade. Por qual motivo ignoramos mendigos na rua? (e o filme mostra vários moradores em situação de rua), por qual motivo quando vemos uma briga não a apartamos? Porque diabos quando vemos um crime (seja de qual cunho for) não interrompemos?

Simples: as pessoas não se importam! É isso que “The Square” mostra tão bem. Ninguém se importa e não vão fazer isso tão cedo. O fato de o filme expor isso de forma tão didática, o torna um dos melhores do ano, e pelo filme ser tão sincero, merece estar entre as melhores projeções já realizadas! 

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