2.7.18

Crítica: As Boas Maneiras

As Boas Maneiras
Imagem: IMOVISION / Divulgação
Clara, interpretada por Sonia Braga em “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, é uma mulher que luta contra uma construtora, ao mesmo tempo em que nos mostra um Brasil real, de mais casas para morar do que pessoas morando nelas, de nepotismo, de disparidade social e de lutas que parecem intermináveis.

Clara, interpretada por Isabel Zuaá em “As Boas Maneiras”, uma mulher negra, que luta para ter uma vida melhor e para quem tudo é mais difícil. Ela luta contra o racismo, luta para pagar as contas, se surpreende ao mesmo tempo em que não se choca com a maldade das pessoas, mas, principalmente, ama e tem empatia.


No filme de Juliana Rojas e Marco Dutra, Clara é mostrada como uma personagem que precisa ter empatia, se ela não tiver, as coisas ficam piores do que já são, e assim ela usa de seu amor para pagar as contas. Ao trabalhar como enfermeira para Ana (Marjorie Estiano), Clara vive os seus já difíceis desafios diários de forma potencializada, já que Ana é uma mulher grávida, branca, rica, morando no bairro mais caro de São Paulo, e que, assim como tantas outras pessoas na mesma situação financeira, não sabe que contribui para a perpetuação do racismo com atitudes que para ela são comuns, como uma olhada de esguelha, a fala que conta algo inalcançável para a ouvinte e claro, a felicidade dela enquanto outros sofrem.

Felizmente, Ana evolui, cria empatia e ama. Esses sentimentos e atitudes dispares, tão bem passados por Estiano (uma atriz incrivelmente talentosa), é o que domina a primeira hora de “As Boas Maneiras”. Graças a Ana e a Clara, é possível notar como o primeiro passo para resolver a disparidade social é a disposição das partes envolvidas a interagir, criando laços tão fortes que são mantidos independente do que aconteça. Graças as duas, observamos o racismo estrutural que domina nossa sociedade através de metáforas incrivelmente bem construídas por Rojas e Dutra, claro, a que mais chama atenção é aquela que parte da gravidez de Ana, pelo aspecto de surpresa que essa causa.

Porém, a disparidade social citada no paragrafo acima é reforçada constantemente e de maneira sutil pelos diretores, como na cena em que Ana e Clara estão no shopping e Clara está entre Ana e um policial branco, numa espécie de “prisão” que as pessoas impõem a ela, ou pela cena sensacional onde Ana tira fotos com uma Clara claramente constrangida, porque a moça não esperaria aquilo nunca, não naquele contexto.

Mas é aí que está, Rojas e Dutra constroem tão bem a obra, a estruturam de maneira tão coesa, que tudo (ou quase tudo no filme) não é possível perceber logo de cara. Os quadros são feitos de forma a expor a disparidade social a todo momento, certos cortes – sutis ao máximo – mostram a questão da moradia e de como uma pessoa pode morar muito bem, a outra nem tanto e ambas as casas estarem tão perto uma da outra, que é inevitável o público não pensar “nossa, isso é normal”.

E esse é objetivo, pensarmos que “isso é normal”, mas percebermos, ao longo das duas horas e dez de projeção, que isso não é normal, isso é errado e infelizmente, enquanto não mudarmos o nosso comportamento e passarmos a ter mais empatia, essa situação não vai mudar.

Empatia, justamente o que Clara teve em “Aquarius” e o que essa Clara de “As Boas Maneiras” tem, ao amamentar um bebê que não é dela, ao escolher cria-lo e fazer isso com um amor absurdo, sabendo das consequências que sua escolha trará para seu futuro e hesitando em faze-la, mas, como ela sempre exerceu empatia, ela ainda assim o fez.

Isabel Zuaa, carrega esse sentimento no olhar, mesmo quando na primeira cena do filme a indicam para o “elevador de serviço”, quando Ana, a quem ela mudaria de forma tão séria no futuro, a encara com um leve desprezo no olhar (mesmo que ela não saiba disso) e mesmo quando ela luta para ser uma mãe boa e é obrigada a lidar com pessoas que querem criar o filho dela por ela. Se não fosse a atriz, nada disso teria sido bem passado.

A Clara de “Aquarius” e a Clara de “As Boas Maneiras” tem coisas em comum, já ditas nesse texto, porém, a do filme dessa crítica ama quando não tem motivos para amar, luta quando há milhares de motivos para desistir, cria de terras que parecem inférteis e gera vida de onde não é possível ser gerado.

Com certeza esse crítico falhou miseravelmente em passar o que ele sentiu quando assistiu “As Boas Maneiras”. Ele tem certeza que conseguiu analisar e dizer que o filme é bom, porém, outros com mais talento farão o texto que ele queria fazer. O que ele espera, é que outras pessoas sintam as mesmas coisas que ele quando assistiu ao filme e que fiquem tão sem palavras quanto ele ficou.

Isso é muito bom! Mas não tão bom quanto as várias Claras que temos por aí!

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