21.10.18

Crítica: Guerra Fria

Guerra Fria
Imagem: Califórnia Filmes / DIVULGAÇÃO
Em 2013, Pawel Pawlikowski ganhava o mundo e ficava conhecido por contar uma dura história sobre seu país, a Polônia. “Ida” segue uma freira que descobre mais sobre seu passado um pouco antes de assumir seus votos e ingressar de vez no convento. Este filme, rendeu ao diretor o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Assim como “Ida”, “Guerra Fria” se passa na Polônia, na época histórica a qual o titulo se refere. O filme dirigido e escrito por Pawlikowski conta a história de amor entre Wiktor e Zula, ele, maestro e compositor, ela, cantora e dançarina. Vivendo na União Soviética sob a ditadura imposta por Stalin, a moça é obrigada a denunciar Wiktor e assim, o amor concretizado se torna cada vez mais impossível quando ele vai para o exílio.


Pawlikowski cria um ambiente que apesar de frio no aspecto climático, já que o filme se passa predominantemente no inverno e também frio devido ao momento histórico, é quente nos sentimentos, graças a uma fotografia e proporção de tela muito bem utilizadas pelo diretor e por enquadramentos inteligentes, que usam de forma elegante os movimentos de câmera.

Usando a proporção comum de tela, a 1:33:1, o diretor remete aos filmes da época na qual o filme se passa e também a alguns clássicos do cinema mudo, como “Aurora” (De Murnau), por ter uma fotografia forte, usando bastante luz natural, mas também utilizando o que a tecnologia oferece, potencializando a cor, aumentando ou diminuindo a exposição de luz, ou seja, a escuridão é mais escura e a luz é mais clara, no mesmo estilo de “Ida”, como se o diretor quisesse passar para o público a panela de pressão que era viver naquela época.

Porém, o destaque mesmo fica para a trilha sonora belíssima e como a música está ligada ao nível de relacionamento e intimidade dos personagens principais, já que o filme aborda a paixão do casal na medida que a música vai evoluindo ou regredindo. O primeiro ato, usa música folk rural, representa o inicio do amor, logo que eles se conhecem, tudo é simples, puro, como a canção que Zula canta falando sobre o Coração e a liberdade de amar, o segundo ato é a fase madura, onde ele já está com a vida feita, apesar de sentir um vazio e ela vive com medo de não poder amar em paz e o terceiro ato expõe as mudanças no relacionamento, o termino, os arrependimentos, a doação de cada um, os sacrifícios feitos e o amor na forma mais crua.

Para expor o segundo e terceiro atos musicalmente, a trilha escolhida é o jazz e o rockabilly, para traduzir os sentimentos do casal protagonista, seja ele a alegria de um twist ou a melancolia do jazz, as mudanças no relacionamento (descritas acima) e no que os personagens estão sentindo naquele exato momento são passadas pela música, não apenas pela maior ou menor exposição de luz da fotografia.

Mas, claro, isso não seria nada se não fossem as atuações, Tomasz Kot (Wiktor) e Joanna Kulig (Zula) dão um show, transmitindo todos esses sentimentos de maneira bem sucedida, mudando de um sentimento para o outro em uma velocidade impressionante – assim como nos relacionamentos da vida real – e aproveitando a câmera calma de Pawlikowski, que em certas cenas não deixa o casal em destaque, povoando os enquadramentos e usando a profundidade de campo em todos os presentes ali (ou seja, focando em todas as pessoas), mas ainda assim, os protagonistas prendem o olhar do público.

A montagem segue a trilha sonora e as atuações, porém, aqui, o diretor usa o ritmo para beneficiar as músicas e expor como as letras também fazem parte do que o casal sente, o que fica bem claro nos números musicais não terem nenhum corte, sendo planos sequencia e nas outras cenas, o corte seco predomina, como se a música fosse a forma que Wiktor e Zula conseguissem se expressar melhor.

E talvez seja, até porque, o calor que a obra passa vem do casal protagonista e das músicas interpretadas por eles. O filme é quente porque pode ser sobre amor, ou sobre música, ou sobre um amor proibido, ou sobre os dois, mas, não há dúvida que a obra de Pawel Paliwkowski é sobre encontrar luz em tempos de trevas, sobre encontrar essa luz no outro, sobre ter empatia e esperança.

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