14.3.19

Análise: O uso do vermelho em "Gritos e Sussurros" (1973)

Gritos e Sussurros


O que um diretor de cinema com liberdade pode fazer é notável, na maioria das vezes, as obras primas são criadas quando o realizador consegue executar todo o seu plano sem nenhum tipo de impedimento, mas, claro, é necessário ter talento para um filme se tornar inesquecível.

1972, Ingmar Bergman, já bem-sucedido e premiado, lança “Gritos e Sussurros”, um filme que conta a história de Agnes (Harriet Andersson), uma mulher com câncer, que está de cama na propriedade rural da família. Lá, ela está sob os cuidados de suas irmãs Maria (Liv Ullmann) e Karin (Ingrid Thulin) e da empregada Anna (Kari Sylwan), todas tem uma relação diferente com a mulher em questão.



O diretor e seu diretor de fotografia, Sven Nykvist, um parceiro recorrente na filmografia de Bergman, usam as cores saturadas para ambientar o local onde a história acontece, mas, a cor principal e mais importante para compreendermos o filme de outra forma é o vermelho, que é o tom que mais aparece durante as 1h30 de projeção.

O vermelho estabelece a relação entre sentimentos distintos de cada uma das personagens, que vão de forma gradual convergindo até se encontrarem num ponto comum para todas elas. Essas mulheres são completamente diferentes, essa cor ajuda a entendermos melhor cada uma delas e é uma ferramenta que Bergman e Nykvist usam para criar subtramas – pequenas, mas relevantes – dentro da trama principal.

Anna, a empregada da família, não ajuda e cuida de Agnes por obrigação, como seria o esperado, mas sim por amor. Amor que sente desde pequena pela mulher e que, na medida do possível, foi retribuído por Agnes. O vermelho representa o amor que elas sentem uma pela outra e a luxuria que não são capazes de satisfazer devido a doença de Agnes. Além da ligação sanguínea que Anna é levada a acreditar que tem com as três irmãs.

No caso de Agnes, o vermelho serve para potencializar a dor que ela sente de forma constante, além do desejo por Anna explicado acima, ela tem um desejo pela morte, já que não aguenta mais sofrer e nem ser um peso na vida de três mulheres que ama de forma diferente. Ela transforma a dor em amor e esse amor em desejo pela morte e pelo alivio da dor.

Gritos e Sussurros


Maria, a irmã mais nova, tem o vermelho mais ligado ao aspecto luxurioso, já que o desejo dela por outro homem que não seja o marido está claro para todos, até mesmo para o marido. Por ser a mais emotiva das mulheres – Anna se segura o máximo que pode, Karin não expressa nada – ela é quem mais demonstra empatia pela dor que a Agnes sente, o que, para as outras duas mulheres, é algo infantil, porém, Maria demonstra segurança e maturidade, já que dentro de seu desejo, também está a aceitação que a morte é o melhor para sua irmã parar de sofrer.

Karin – como dito brevemente no parágrafo acima – não expressa nada, nenhum tipo de sentimento, a não ser em relação a sua vida pessoal. O vermelho da personagem é referente ao sangue e no que diz respeito a querer sentir algo, nem que seja a dor, inclusive sendo capaz de atos extremos para tal – como a bela cena do caco de vidro – ela parece cuidar de Agnes por obrigação e não por amor, já que nunca demonstra nada do tipo, mas temos que levar em consideração a dificuldade dela em expressar sentimentos.

As quatro atuações do filme se completam, justamente por essa convergência de sentimentos, todas as personagens tem um pouco uma da outra, tanto pelo lado bom, quanto pelo ruim. O vermelho não serve apenas para Bergman expor a luxuria, desejo, amor, dor, mas para unir essas mulheres e para elas lidarem com o que são e com o que sentem de forma orgânica, como se todas, pelo menos por um momento sejam uma só, como parecem ser na cena do sonho.

O desenho de luz, sempre mantendo as atrizes na sombra, mostra o estado psicológico delas, sempre escondidas dentro de si mesmas e de sua própria culpa, esta não é causada apenas pelo estado de Agnes. A culpa que elas sentem é exposta pelo vermelho, não apenas pelo das paredes e mobília, mas pela ausência dele nos figurinos, como se elas não quisessem assumir essa culpa.

Culpa que sentem de forma diferente e que são externalizadas apenas no terceiro ato, como se cada uma a sua maneira fechasse um ciclo, tanto os próprios, quanto aqueles que envolvem as outras mulheres do filme. Fechando os ciclos individuais elas podem seguir suas vidas, estando juntas ou não.

Karin sente culpa porque não ama a irmã e sabe disso, mas não faz nenhum tipo de esforço para mudar, Anna sente culpa porque é apaixonada por Agnes e sabe que nada que ela fizer será capaz de salvá-la e por fim, Maria tem saudade da relação que tinha com as irmãs e com Anna, por isso, ela tenta abstrair a doença da irmã lembrando de momentos da infância delas.

Logo, o vermelho serve como resumo da obra, porque expõe todos esses sentimentos junto com a performance das atrizes, que aproveitam bem o uso da cor, para construir suas personagens e também montar um relato autobiográfico de Ingmar Bergman.

Uma criança que teve muitos problemas de saúde e criado por pais rígidos, Agnes pode ser uma representação audiovisual dos problemas que Bergman teve quando pequeno, Karin, o mesmo nome de sua mãe, representa a personalidade desta, de acordo com o que ele mesmo descreve em sua autobiografia, Maria é a irmã mais nova que ele amava e Anna pode ser uma síntese, em forma de uma pessoa / personagem, que representava um alivio para Bergman, pode ser o cinema, o teatro, o envolvimento irresponsável com mulheres ou qualquer coisa que ele usasse como válvula de escape.

Gritos e Sussurros” está longe de ser apenas um filme de Bergman, ele pode não ser o melhor, mas está na briga para tal posto, porém, convenhamos que isso não importa. O que realmente vale a pena é o tanto de coisas que podemos descobrir em um filme que nunca será esquecido na história do cinema.

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