21.10.19

Crítica: A Vida Invisível

A Vida Invisível
Imagem: Bruno Machado / Vitrine Filmes / DIVULGAÇÃO
“O nascer do sol não dura a manhã inteira, uma chuva não dura o dia inteiro, parece que meu amor está no fim e te deixou sem avisar, não será sempre tão cinza assim”. Esse trecho de “All things must pass”, música de um dos álbuns solo de George Harrison, descreve bem a primeira cena de “A Vida Invisível”, filme dirigido por Karim Ainouz e escrito por Murilo Hauser, Inés Bortagaray e pelo próprio Ainouz.

Pois o amor das duas irmãs uma pela outra sempre parece estar no fim, mas nunca acabará, por mais que fique cinza as vezes, ou melhor, nublado, como é a cena citada no paragrafo anterior. Esse sentimento é frequente pois Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) foram separadas.

Em plenos anos 50, as duas mulheres, filhas de uma família portuguesa conservadora, tem uma vida restrita e comandada pelo pai. Guida foge e quando retorna para casa após uns meses, seu pai mente sobre a localização da irmã e assim, elas ficam se procurando enquanto tentam viver suas vidas.

É aí que o amor delas é posto a prova, já que essa separação forçada, sem as duas saberem disso, é o que deixa as vidas delas cinza. Por mais que elas tentem a todo tempo dar cor as suas vidas, através de amores que nunca serão igualados pelo fraternal.

Essa cor é algo que Karim Ainouz e a diretora de fotografia, Hélène Louvart, fazem questão de usar como ferramenta para fortalecer ainda mais o melodrama que o roteiro cria com base no livro de Martha Batalha. O verde, muito frequente em lembranças e na primeira cena do filme, representa a felicidade, o que talvez seja uma explicação para esse tom estar sempre no fundo dos quadros. Esse sentimento é algo distante para as duas, não por culpa delas e sim por culpa dos homens presentes em suas vidas.

Homens que realizam abortos a quase todo momento do filme e são retratados como criaturas patéticas e na maioria das vezes, nas cenas que eles aparecem, ou eles não tem falas, ou tem falas bobas e enquadrados com cores como roxo, que representa a luxuria ou em certos casos a morte (não a deles, mas a que eles causam), ou em azul e vermelho. No caso do primeiro tom, representando a tristeza (novamente, não a deles, mas a causada por eles) e no segundo caso, representando o amor (que sentem por si mesmos) e a luxuria.

Mas no caso do vermelho, o principal uso dele é na relação das duas irmãs, pois esse tom representa o amor que elas sentem uma pela outra. Notem como muitos dos figurinos usados pelas duas, assim como parte dos objetos presentes onde elas vivem, são vermelhos e como a cor está sempre presente de alguma forma em quase todas as cenas.

Há uma cena em que Eurídice aparece vestida de vermelho, no centro de um dos cômodos de sua casa que é todo azul. Isso representa a esperança de ser feliz e a tristeza causada pelo casamento abusivo com Antenor (Gregório Duvivier), um homem que a desmerece de todas as formas possíveis.

Ele a trata como objeto, inclusive verbaliza isso em certos momentos e a cena onde ocorre a noite de núpcias é algo tão cruel quanto ainda é real. Pois o que vemos ali, na cena de sexo, não é sexo, é um confronto físico, animalesco, onde, infelizmente o homem ganha na maioria dos casos.

Por isso que Antenor talvez seja o maior abortista do filme (até mais que o pai de Eurídice e Guida), pois, dentro da desconstrução do sexo proposta por Ainouz, que tira o languido e o considerado sensual e insere o animalesco, o diretor opta por um personagem que prefere não ter nenhuma relação com a mulher, a não ser que acabe em sexo.

As personagens quebram o machismo o tempo todo, sem dúvida não apenas por quererem isso, mas por necessidade. A montagem paralela entre os arcos das irmãs, dá uma noção boa do tempo que se passa, aliado com a câmera próxima e em geral com o ângulo plongee (de cima para baixo), expõe como, sim, a sociedade busca oprimi-las o tempo todo, mas não significa que elas tenham que aceitar isso.

E não aceitam, ambas passam a administrar suas famílias, como é muito comum para as mulheres no Brasil, independente da classe e isso se torna mais real quando vemos que Eurídice ascendeu, antes pertencente a uma classe média baixa, ela passa a fazer parte da classe média alta, em compensação, Guida antes da classe média, agora faz parte da classe mais baixa (reparem como o local onde ela mora sozinha, lembra o cortiço descrito por Aloísio Azevedo no livro de mesmo nome).

Porém ambas fazem as mesmas coisas, trabalham, cuidam da casa, dos filhos e tentam manter seus sonhos vivos. Por mais que as duas tivessem uma vida muito atribulada, elas precisavam cumprir a função de “administradora”. Isso remete a “O medo consome a alma” (Do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder), quando Emmi, ao se apaixonar por Ali, precisa tomar a decisão de viver o sonho de um amor verdadeiro ou continuar sendo a administradora da família.

No caso de “A Vida Invisível”, o amor verdadeiro é o fraternal, como é exposto pelas excelentes atuações de Carol Duarte e Julia Stockler, que tem como principal característica expor que por mais que o tempo passe, outros amores surjam, amores inesperados e não desejados inclusive, a relação delas nunca morreu, ficou cinza, mas, tudo passa, como diria Harrison.

Esses novos amores, alimentados pela atuação das duas, pela fotografia e pela direção de Ainouz, que assumiu o formato de novela, de um melodrama de longa duração é algo fácil de sentir empatia, pois é palpável, concreto. O sentimento que “A Vida Invisível” traz é algo brasileiro e que deveria ser universal.

Com a proximidade do fim da trama, fica impossível negar algo que diretor e atrizes deixaram claro desde o começo, o amor pode vir nas mais diversas formas e surge de momentos simples, que farão falta no futuro próximo, por mais que no presente não percebamos isso.

Ou como diria Vinicius de Moraes, o amor das duas irmãs é algo “fiel à sua lei de cada instante, desassombrado, doido, delirante, numa paixão de tudo e de si mesmo.” E em tempos em que é tão difícil amar, um filme como o de Ainouz é algo necessário e dificilmente esquecível.

Veja aqui o trailer

Um comentário:

  1. Valdir Conceição12 de março de 2020 17:33

    Gostei do roteiro, da fotografia e da dinâmica do filme ,não gostei da qualidade do som , em.alguns momentos quase não se ouvia os textos. Agora , que pai horrível heim , e saber que isso era muito comum de acontecer, os pais colocarem as filhas pra fora de casa em caso de gravidez sem casamento.
    Bom filme

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