21.1.19

Crítica: Vice

Imagem: Imagem Filmes / DIVULGAÇÃO
Aparentemente, Adam McKay quer se estabelecer como um diretor que gosta de histórias complexas, se sentindo à vontade em recriar fatos políticos reais e ter os protagonistas desses fatos como os protagonistas de seus filmes. Como havia feito em “A Grande Aposta”, contando com um elenco estrelado.

Esse elenco se repete em “Vice”, contando com Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell e Sam Rockwell, a obra conta a história de Dick Cheney (Bale), do começo de sua trajetória como assistente de Donald Rumswell (Carell) até assumir a vice-presidência dos EUA, tendo como companheiro de chapa George Bush Filho (Rockwell). Adams interpreta a ambiciosa Lynne, escritora, professora e mulher de Cheney.

O filme se divide em duas partes bem distintas, a primeira hora é dedicada a contextualizar a escalada de Cheney até a vice-presidência, a segunda parte mostra justamente o que ele fez quando assumiu o cargo e como se posicionou após o dia 11 de setembro de 2001.

Para isso, McKay usa duas linhas do tempo, uma a do presente (11 de setembro de 2001 em diante) e outra do passado de Cheney e Lynne. Na primeira hora, a obra tem problemas de ritmo, o que deixa claro como o objetivo desta é apenas contextualizar como Cheney se tornou o que foi, usando muitos cortes secos e metáforas explicativas construídas com aspectos da cultura popular.

Essas metáforas são feitas pela narração em off, realizada pelo personagem de Jesse Plemons. Também com uma certa falta de ritmo, devido as mudanças bruscas realizadas pelos cortes, a narração em off tem seus problemas, não pela narração em si, mas não há como o personagem de Plemons saber de tudo aquilo sobre os assuntos internos da trajetória de Cheney e o motivo apresentado no fim do filme para que ele tenha esse conhecimento é um tanto quanto impossível de acontecer.

A primeira hora se salva pelas atuações, tanto de Bale, quanto de Adams, que conseguem utilizar o sarcasmo do roteiro de McKay para fazer seus personagens evoluírem de forma gradual e para vermos, na prática, como os assuntos complexos, explicados pelas metáforas descritas acima, acontecem de fato, por exemplo, a teoria do executivo unitário, da qual Cheney era fã.

Porém é na segunda hora, portanto, segundo e terceiro atos, que o filme ganha a força que tem nas premiações. Acompanhar a trajetória de Cheney como vice é intrigante e surpreendente, já que nos damos conta que foi ele quem (ao menos aparentemente e dentro do filme) governou o país naquele período, colocando os EUA em guerra apenas para conseguir acordos com empresas, criando a guerra ao terror que movimentou a economia dos EUA naquele período e estando presente em praticamente todos os setores, como a fabulosa cena da transição mostra.

Mas, o que chama a atenção é como Cheney e Lynne eram republicanos na política, no trabalho deles e não na vida, separando a vida pessoal e a vida familiar com quase que absoluto sucesso, como, por exemplo, nas atitudes que tomam em relação as filhas (com destaque para Mary), já que, em nenhum momento as pautas que no trabalho dos dois, eles seriam contra, são tratadas com desprezo ou descaso na criação das filhas.

Não que Cheney e Lynne possam ser considerados boas pessoas, mas está muito claro que eles são inteligentes o suficiente para saber que determinadas coisas não podem ser mudadas, ignoradas ou abordadas da forma errada. Isso leva a atuação de Bale e Adams a outro nível na segunda hora, pois os dois aproveitam o sarcasmo do roteiro para passar uma mensagem de certo “progressismo”.

Surpreendendo no fim da obra com certas atitudes que ainda estão presentes na sociedade até hoje, “Vice” é um filme totalmente diferente entre a primeira e a segunda hora, que segura sua qualidade graças as performances de dois interpretes seguros e que sabem o que fazer e quando fazer, talvez, com uma narração em off melhor organizada e uma edição igual entre as duas horas, a projeção poderia ter sido mais do que é, porém, ainda assim, vale a pena ver como uma história complexa e elenco experiente podem tirar um filme do ostracismo.

O que me leva a pergunta, Adam McKay é capaz de dirigir um filme com elenco pequeno, formado na maioria por desconhecidos?

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