4.2.19

Crítica: No Portal da Eternidade

No Portal da Eternidade
Imagem: Diamond Films / DIVULGAÇÃO
Pensar em cinema, talvez seja, assim como todas as formas de arte, algo subjetivo, estritamente pessoal, que usa a interpretação das pessoas como forma de sobrevivência, causando discussões necessárias que, na maioria das vezes, fazem a sociedade crescer e avançar.

“No Portal da Eternidade” é um filme que usa dessa subjetividade, dessa pessoalidade, para contar a história de Vincent Van Gogh (Willem Dafoe), de uma forma que talvez nunca tenha sido contada antes, já que foge do senso comum que se criou sobre o pintor, ou seja: que ele era louco e que devido a isso se matou, sem nem saber da possibilidade de seu sucesso futuro.

Dirigido por Julian Schnabel (“O Escafandro e a Borboleta”), a obra segue Van Gogh desde quando ele vai viver em Arles, no sul da França, onde conhece as pessoas que “Com Amor, Van Gogh”, usa como personagens, até o fim de sua vida, já com os quadros de sucesso pintados, com a orelha cortada e sendo julgado pela sociedade.

Esse ponto de vista subjetivo é efetivo graças a uma câmera bem próxima, que aproveita o fato de a obra ser contemplativa ao máximo para criar uma aproximação necessária com o personagem e com o seu trabalho. Devido a isso que a fotografia usa as cores no mesmo tom que os impressionistas (como Van Gogh) e alguns pós-impressionistas usavam em seus quadros, tons fortes, cores claras, aproveitando bem as paisagens onde o filme se passa.

No caso das paisagens, a câmera não se mantem próxima e fechada em algum ponto especifico, ela abre para que o público veja o que Van Gogh pintará e aproveita essa abertura para construir a noção de eternidade da qual o pintor tanto gostava. Ele acreditava nessa eternidade da natureza, como se ao ver uma paisagem, todo o resto fosse infinito, logo, essa noção também serve para a arte e claro, para a vida, como vemos na fabulosa cena dele com o padre interpretado por Mads Mikkelsen.

Por falar em interpretações, Willem Dafoe passa muito bem essa noção nova de Van Gogh que Schnabel quer mostrar para o público. Vemos o tempo todo o pintor como alguém ansioso e as pessoas ao redor – como Paul Gaughin, interpretado por Oscar Isaac, excelente – tratavam a ansiedade dele como loucura e portanto, as crises que ele tinha eram potencializadas e encaradas para os médicos como doenças mais sérias, como por exemplo, a esquizofrenia.

Devido a isso, é lindo ver como a câmera próxima quando ele pinta permite ao espectador ver que ele tinha pinceladas rápidas, quase uniformes, não apenas por um traço estilístico que caracterizava seu trabalho, mas para aliviar a ansiedade e a angustia que ele sentia e que o corroía e no fim das contas, talvez seja isso que acabou o matando e não o tiro no estomago.

Sabendo de tudo isso, é notável como ver Van Gogh de certa forma otimista em relação ao futuro de seu trabalho comove, quando ele fala “a vida é para semear, a colheita não é aqui”, citando a bíblia, expõe como ele pintava porque sentia que seu trabalho tocaria as pessoas no futuro, com ele vivo ou não, a colheita aconteceria, ele não se importava com quando aconteceria.

Logo, aqui estou eu, escrevendo sobre o filme que é uma das várias obras do audiovisual que representam a “colheita” da frase. De fato, ela aconteceu e “O Portal da Eternidade” só mostra como a eternidade é algo viável, desde que você a encare de um ponto de vista pessoal, assim como a câmera de Schnabel fez.

A eternidade não significa sucesso, significa que você marcou a vida de uma pessoa com algo que fez a diferença. Não há dúvida que Vincent Van Gogh fez isso de formas diferentes e para pessoas diferentes. Ele viveu a vida no Portal da Eternidade do título desta bela obra.

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